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Sunday, September 18, 2016


em mim nada secou 
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples 
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar... e no coração persistente das plantas


Al Berto, O Medo, pág. 159

Saturday, September 17, 2016


e as aves? frágeis quando aperta a tempestade... migraram como eu? 
(...) 
estremecem-me nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva


Al Berto, O Medo, pág. 155

Friday, September 16, 2016

as mãos, os pés calçados de lua, olhos inchados 
ele caminha 
vinho, bebe vinho como os deuses 
esquece os corpos que o povoam, ouve vozes 
pressentem-se vozes 
a cidade existe em ti, mas ele tocou outros frios 
outros marulhares, o vento cortante doutras ruas 
um insecto luminoso, um eco 
folha de árvore arrastando-se na lama, cigarro que se extingue na humidade da memória doutros dias 
caminha, resta-lhe perder a memória  
esvaziar-se



Al Berto, O Medo, págs 117-118

Monday, November 30, 2015

vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
eu poderei contar-te o que esqueci. esta canção quase perdida na casa do nosso passado.


Al Berto, Luminoso Afogado

Wednesday, July 22, 2015

bebo para que as remotas cicatrizes doutros corpos não desatem a doer.


Al Berto

Sunday, April 19, 2015

que horas serão dentro do meu corpo? que mineral vermelho jorraria se golpeasse uma veia?


Al Berto,  O Medo

Wednesday, August 15, 2012



abro os olhos e estendo a mão e o corpo para fora do sono, ergo-me por dentro do imenso vazio.
tudo se despedaçou. o sonho, e o amor que é sempre tão breve (…) estou gasto. dei-me sempre mais do que podia. não há nada que me possam roubar, sou um homem espoliado de todos os bens, de todas as doenças, de todas as emoções(…) sou um alfabeto e não sei se terei tempo para me decifrar.


Al Berto, O Medo (3)

Saturday, August 11, 2012


“estávamos sentados à sombra dos tamarindos. ouvíamos uma voz e não sonhávamos.
nenhum de nós sabia se o sonho, ou a morte, nos conduziria a algum porto de felicidade.

não me lembro o que aconteceu a seguir.
a noite deixava-se habitar por um silêncio escorregadio.
veio-me então ao pensamento o grande porto do sul onde aportaras e dizias ter sido feliz.
as horas começaram a cair umas sobre as outras, iguais, sem frémito, melancólicas.
quando te digo que vou de novo partir, perguntas-me: morre-se porquê?

caminhamos em direcções opostas. caminhamos sem destino pela cidade. a febre aniquila-nos.
existem Índias por descobrir, no segredo da noite dos nossos desastres.
caminhamos neste espaço de penumbras e de incertezas – onde a fala já não cintila e as palavras são de cinza.

Al Berto, Luminoso Afogado

Saturday, August 04, 2012

S.



"The barn fell down
Since I saw it last
It's rubble now
Well so much for the past"

Vic Chesnutt
[http://www.youtube.com/watch?v=IuUZQLOOAUY]



Wednesday, June 27, 2012

"You're a folk tale, the unexplainable"*


“no meu susto de estar vivo, uma agulha costura os órgãos uns aos outros para que a dor não se espalhe pelo corpo. a dor, esse feixe de nomes vibrando junto ao coração. um dia estarei longe, muito longe de mim e de ti. terei perdido o corpo que te sente, irremediavelmente.”

Al Berto

Wednesday, June 20, 2012


"Começo finalmente a ausentar-me. Hoje, por exemplo, olhei-me ao espelho e vi que muito pouco resta de mim, daquela que conheci e tinha um nome. Onde terei começado a esquecer-me?
[...]
Falámos dos fantasmas com que nos atordoamos.
Cansámo-nos na revisitação de lugares-comuns e de procurar um sentido para tudo isto. Foi inútil, a vida já não é uma coisa desejável.
Sentimo-nos cansados, um cansaço semelhante à flor que murcha por excesso de luz, ou por falta de água. Não sei...
[...]
Conheço cada vez melhor aquilo que de mim se despede e não regressa, e aquilo que nasce algures onde já não estou.
[...]
Dentro de pouco tempo não sentirei mais o meu corpo, e tudo me será permitido, mesmo a morte, ou a simulação da vida.
As mãos, aqui estão as minhas mãos, secas e despojadas como um deserto. Para que terão servido as minhas mãos?
E os meus olhos? Em que extremidade do tempo por percorrer se situará o meu olhar?
E os meus lábios, os meus lábios? Alaíno... beija-os depressa.
[...]
Quem será esta gente cor de fumo que se evade dos meus sonhos?"

Al Berto

Tuesday, June 12, 2012

Teus dedos de noite açucarada


“é tarde? que importância terá ser tarde se o cansaço do mundo não abandona a roupa. ouço o corpo inquieto, imobilizado à porta de sua própria destruição.
(…)
vou coser as pálpebras de amianto com uma finíssima agulha de fogo, flexível, para não deixar cicatriz na bainha azul das palavras, vou dormir abandonadamente sem tirar os óculos escuros que me defendem contra o mundo, e no abismo das insónias reinventar-te-ei.”

Al Berto
S.