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Friday, August 12, 2016

à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis.



António Lobo Antunes, Visão nº 1223

Tuesday, August 02, 2016

e o piano do coração aos trambolhões na escada rasgando cordas de veias (...) nunca vi uma pessoa ocupar tão pouco espaço como ele nessa tarde à medida que fragmentos indecisos principiavam a unir-se em mim, membranas transparentes e essa espécie de lágrimas que nos acompanham toda a vida, algumas vezes nas pálpebras mas a maior parte do tempo ocultas de nós, numa das pregas de desconsolo de que somos feitos, se conseguisse contar-vos, e não consigo, o que nos rói sem sabermos, o que custa sem darmos fé omitindo os segredos estrangulados e as misérias conscientes, tanta boneca falecida, tantos olhos só nossos que nos censuram 



António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Sunday, July 31, 2016

a janela em cima a iluminar um gato que nos ilumina a nós com as lamparinas dos olhos, há alturas no escuro em que só os gatos se acendem, que fazem eles no livro, de que região da infância veio este encher a página de sumaúma e silêncio



António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Sunday, July 24, 2016

O Júlio Pomar disse-me sempre em alturas difíceis da minha vida
- Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer.
E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
- Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente?
(...)
- Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender-me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo-me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios.


António Lobo Antunes, Visão nº 1220

Monday, June 13, 2016

"se nisto, pumba, vos perdesse?"

Que ideia mais parva termos crescido. Aprender a andar de bicicleta, aprender a jogar ténis, perseguir lagartixas no muro e como tudo isto gela em nós um bloco de saudade. 

(...)

E acho que pela primeira vez na vida senti um cheiro a enxofre enquanto me apercebi confusamente que o mundo estava repleto de mistérios estranhos, ele que até então parecia tão simples, tão claro. 

(...)

Porque perdi tudo isto? Porque deixei que tudo isto se perdesse? Era tão rico nesse tempo, tão cheio de minhocas e de nuvens.

(...)

Ternuras da memória por favor não me abandonem: o que seria de mim se nisto, pumba, vos perdesse?



António Lobo Antunes, Visão nº 1214

Sunday, May 08, 2016

(e ele poisava a mão no ombro a desfazer-me os os ossos
- Meu cabrão, meu cabrão
eu, para ele
- Começo a ficar farto das tuas declarações de amor 
a desfazer-lhe os ossos também porque não gosto de ficar aleijado sozinho)



António Lobo Antunes, Visão nº 1209

Saturday, May 07, 2016

o pudor de estar ao lado do sofrimento, tocando-lhe sem lhe tocar, porque não é preciso mexer nas pessoas para gostar delas, nem mudar-lhes os traços e os gestos para as amarmos.



António Lobo Antunes, Visão nº 1209

Wednesday, January 20, 2016

estarei aqui ainda ou não existo mais porque a chuva acabou (...) não contava que o mundo se evaporasse assim.


António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Saturday, January 02, 2016

e porque vou escurecendo tanta noite cá dentro


António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?


Wednesday, December 23, 2015

dado que o coração pingos, não batimentos, gotinhas


António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Monday, June 29, 2015

deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo, mas pesa, sente-se dentro o

(ia escrever o incómodo e não incómodo conforme não tristeza, não dor, como traduzir isto, não sei)

Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa

(para já fica assim)…



António Lobo Antunes

Thursday, March 12, 2015

uma alegria com a tristeza mal dissolvida no fundo, percebia-se um restinho idêntico a esse pó dos remédios na base do copo que por muito que se mexa com a colher continua


António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia

Tuesday, March 10, 2015

borboletas numa caixa de sapatos em que eu abria furos para que respirassem
(não se calcula a quantidade de oxigénio que as borboletas requerem)
os grandes cães silenciosos que nos perseguem nos sonhos e ao saltarem para nos morder acordamos, pensa-se
- Sonhei
e no entanto um resto de saliva deles no pijama



António Lobo Antunes, O Arquipélago da Insónia

Sunday, June 01, 2014

"aceitava fosse o que fosse de quem quer que fosse agora, [até os cães, que volta e meia ladravam nas quintas, eu desejava perto, até os moscardos]"


António Lobo Antunes, Não é meia noite quem quer

Saturday, May 10, 2014

e, em lugar da ilusão de amor, silhuetas imprecisas, distantes.



António Lobo Antunes, Todos nós temos na vida uma ilusão mais querida, Visão nº 1105

Sunday, February 09, 2014

"sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro"


"Destestava ser mulher, comenta um pouco a despropósito, 'ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido de que era capaz de conquistar uma mulher, quando, na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso'"


"É tão fácil dizer 'amo-te' e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dela."


"Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. 'Elas abraçam-me'*, consente, 'mas não são abraços apertados.' Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: 'I like animals because they don't discuss the existence of god.'"
*[referindo-se às anfitriãs da entrega do Prémio Nonino]


"Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"



in Três irmãs, a 'nona' e uma garrafa de grappa, Visão nº 1091
 

Wednesday, January 22, 2014

Quando apagam a luz do quarto a noite deita-se em cima do meu corpo, de mistura com os passos no corredor que se transforma num espaço infinito de ecos e, às vezes, dos pezinhos da tristeza que, não sei como, chegou ao pé da cama e pode ser que me lamba uma das mãos, cortando-me, como uma faca, o medo pelo meio, eu tão sozinho, tão indefeso, tão frágil. Serei merecedor, quando for grande, de ter comigo o sol da manhã, o cheiro do pão quente, as lagartixas no quintal? Esta tristeza, assim mansa, permanecerá comigo? Deus, faz com que eu não cresça, não tires as lagartixas nem o sol da minha vida.


António Lobo Antunes, Crónica escrita por mim hoje às onze horas quando tive 6 anos, Visão nº 1090

Sunday, January 05, 2014

Às vezes sentimo-nos desamparados sem saber que desamparados sempre

(...)

de que serve o passado, não temos certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida



António Lobo Antunes, Não é meia noite quem quer

a culpa dos trapos



Tuesday, December 31, 2013

- Esquece isso
e julgava esquecido, apareceu-me sem querer, a quantidade de tralha, sepultada na gente, que ressuscita afirmando
- Eis-nos cá
trazendo pegada a ela mais ruínas consigo


António Lobo Antunes, Não é Meia Noite Quem Quer