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Sunday, February 05, 2017



Eu sabia que a inocência é cúmplice do mal; ignorava apenas onde atam ambos o seu nó estrangulador.


Herberto Helder, Os Passos em Volta, pág. 78

Saturday, February 04, 2017

Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior - a memória mortal. Mas como pode a memória ser assim tão esperta e implacável, tão acerba, renovando continuamente o instante completo, o crime completo até dentro, tudo: o impulso nascido da mais obscura intransigência, o gesto que exprime inteiramente a biografia, ou o poder do coração que não deixou escapar uma única parcela da atrocidade e da ciência? E renova também o vertiginoso arrepio do espectáculo: o corpo onde a ferida muito entranhadamente talha a carne em duas.


Herberto Helder, Os Passos em Volta, págs. 79-80.

Tuesday, July 03, 2012

Homenagem


Porque te amo muito... e temo não te conseguir mostrar o quanto...

"(...)
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
(...)
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
(...)
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor."

Herberto Helder


Tuesday, June 26, 2012

Ninguém se perdoa no tempo



Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

(...)
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.

As mãos tocavam por cima do ardor a carne
como um pedaço extasiado.

(...)
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Herberto Helder, Poemacto II