Saturday, May 17, 2014

Canícula sem fim

O tempo alonga-se, lento, muito lento numa espera em que parece não ter fim. Imenso, seco, sem o ânimo de uma nuvem o horizonte dissipa-se movediço, sob a inclemência abrasadora do sol, não se vê vivalma. O pó que tenho entranhado nos poros mistura-se com o suor, engelhando-me a pele numa peganhenta camada de sujidade viscosa. Sorvo um pouco de água a tentar mitigar a sede que me corrói, e sinto amansar o ardimento dos lábios gretados pelo calor. Nos rostos duros que me rodeiam, de traços rigídos, e vincados, como se esculpidos em pedra, e dos olhares gélidos que me dirigem, percebo uma tensão crescente, mas ninguém quer dar parte fraca. Todos resistimos à aridez da demora na mais completa quietude, sem distrações, aproveitando as parcas sombras existentes para nos resguardarmos do lume solar. E continuamos a perscrutar permanentemente o horizonte à cata do ínfimo movimento, mas tirando o zumbido das moscas varejeiras, não se passa nada. É o tédio absoluto a cozer-nos em banho-maria, até à morte.



Adolfo Luxúria Canibal, Estilhaços Cinemáticos

Friday, May 16, 2014

Poesia como forma de colocar a afetividade em modo de pensamento e o pensamento em modo de afetividade. Como se sentir pudesse ser mansamente diminuído (ou aumentado) de forma a que não chegue ao grito, mas sim à sensata observação. Sentir para perceber melhor, não para gritar melhor.
Ironia, portanto, como modo de diminuir o disforme que há no grito e na excitação; dor e prazer transformados em verso que, dois metros acima desse solo que dói e tem prazer, diz: ali em baixo dói-me e tenho prazer, porém eu, aqui, enquanto verso, estou dois metros acima (pelo menos). Eis a ironia: o verso está a uma distância segura dessa vida sempre inseguríssima e por vezes parva - outras vezes excelentíssima, mas sempre incontrolável.



Gonçalo M. Tavares, Vasco Graça Moura, poesia, Visão nº 1106

Saturday, May 10, 2014

e, em lugar da ilusão de amor, silhuetas imprecisas, distantes.



António Lobo Antunes, Todos nós temos na vida uma ilusão mais querida, Visão nº 1105

Friday, May 09, 2014

também eu quero tirar de vós o que guardais de mais primitivo, o gesto gratuito e ainda não contaminado. Eu quero escolhas guiadas pela inspiração do desejo, falhas de tino e de provento. Os testículos estão sempre lúcidos. Que o móbil não seja mais que bizarria grotesca, aveludada no pântano das possibilidades. No deitar das sortes reencontro a inocência e a espontaneidade dos jogos de infância, a virgem e o absoluto. 


Adolfo Luxúria Canibal

Wednesday, May 07, 2014

edição

Era tão bom se a pessoa pudesse editar a vida! Dizer assim: esta pessoa tscctsccc [gesto de tesoura], esta viagem tscc tscc. Poder ganhar três anos perdidos, ou os minutos gastos a ler livros que eram uma merda, ou a falar com pessoas que não interessam e que não estão interessadas em nós. Tenho 58 anos, mas, em tempo perdido, devo ter praí uns 25...

Miguel Esteves Cardoso, Visão nº 1104

Friday, April 25, 2014

cair o carmo e a trindade

Durante tanto tempo a ideia de ti não deixava nada de pé. Bastava um vislumbre para que se instalasse o caos. A falta de razões é devastadora.
A multidão ainda não te torna invisível mas hoje não foi mais do que uma oscilação. Estás pequeno, tens a barba desmazelada, perdeste o brilho. 



Monday, April 21, 2014





engraçado... 
estavas à espera que esse bocado de tempo não viesse contigo?
e as más recordações, quem é que as lembra?
quem é que as consome?
já devias saber que a fome não dorme, e... 

Tuesday, April 15, 2014





This is a promise with a catch
Only if you're looking can it find you


Wednesday, March 26, 2014

Save it for someone who cares...


tornámo-nos apenas estranhos com uma hipoteca comum.



Tinhas razão, as recordações não sobrevivem à falta de amor. Só te vejo as fraquezas, as incoerências de carácter: o perfeccionista que se esquece do óbvio; o intelectual incapaz de perceber o sofrimento do outro; o cobarde capaz de sacar das garras de manipulador. E sou eu quem anda de olhos postos no chão.... devíamos ter vergonha! e algum orgulho também.

Tuesday, March 11, 2014

24

nãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevença.

Monday, March 10, 2014




The twilight's kneeling
And the chessboard still has two unbalanced pieces

Sunday, March 09, 2014





















[Nada Tenho de Meu - Diário de uma viagem ao Extremo Oriente, de Miguel Gonçalves Mendes, Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca.]



I could not shift the shadow
or form sugar from your halos
(...)
So open up your mouth
and in your invisible church
under sun while cats purr
gorgeous dreams under dark nights
and tender rhymes under swallow flight
and lovely bird song sings


David Tibet 

Wednesday, March 05, 2014

stripped




Will you miss me when I burn
And will you eye me with a longing?
It is longing that I feel
To be missed for, to be real


Bonnie 'Prince' Billy

Friday, February 28, 2014

"the carnival drums all mad in the air"




Across clinical benches with nothing to talk
Breathing tea and biscuits and the Serenity Prayer
While the bones of our child crumble like chalk
O where do we go now but nowhere


Nick Cave

Sunday, February 23, 2014

if it's not asking too much...

Heaven please send to all mankind,
Understanding and peace of mind.
And if it's not asking too much
Please send me someone to love.


Percy Mayfield
[versão de Bill Callahan]

Friday, February 21, 2014

Limited capacity




I painted myself into a corner again
Because I didn't like the colour of my floors
After you walked all over them
You're full of white lies
Oh, you're full of white lies
But I've got a limited capacity
Yeah I've got a limited capacity
And I'll paint my floors again
I'm sure I'll paint my floors again


Bill Callahan

Wednesday, February 19, 2014

Monday, February 17, 2014

Friday, February 14, 2014





Safe to say
that I'll never be found
broken bones holding loose
you will be crowned
you will be crowned
queen of all you have found
you have found
alone

Micah P. Hinson

Wednesday, February 12, 2014

Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira

[miminho neozelandês do dia]

Tuesday, February 11, 2014




If you've still got some light in you then go before it's gone
Burn your fire for no witness 
it's the only way it's done


Angel Olsen 

Sunday, February 09, 2014

"sexo sem amor dá vontade de tomar banho por dentro"


"Destestava ser mulher, comenta um pouco a despropósito, 'ainda tinha de aturar um parvo a dizer mentiras, convencido de que era capaz de conquistar uma mulher, quando, na realidade, quem escolhe são elas. E eles, feitos tontos, já foram escolhidos mas não percebem, porque elas são generosas e convencem-nos disso'"


"É tão fácil dizer 'amo-te' e nunca dizemos. E ficamos com a ternura no colo como um bebé, sem saber o que fazer dela."


"Ao fim de três dias, Lobo Antunes dá sinais de inquietação. Tanta atenção, tanta ternura e alegria também cansam. 'Elas abraçam-me'*, consente, 'mas não são abraços apertados.' Está farto de jantar com gente erudita, de conversas existenciais. Apetecia-lhe citar Walt Whitman: 'I like animals because they don't discuss the existence of god.'"
*[referindo-se às anfitriãs da entrega do Prémio Nonino]


"Tenho saudades de Lisboa, tenho saudades do mau gosto, tenho saudades de ouvir dizer 'esta gaja é tão boa'. E o poder de síntese desta frase, já viu?"



in Três irmãs, a 'nona' e uma garrafa de grappa, Visão nº 1091
 

Saturday, February 08, 2014

Is life a ride to ride?
Or a story to shape and confide?
Or chaos neatly denied?


Bill Callahan (*)

Sunday, February 02, 2014

sad goodbye



















Orpheus

Standing firm on this stony ground
The wind blows hard
Pulls these clothes around
I harbour all the same worries as most
The temptations to leave or to give up the ghost
I wrestle with an outlook on life
That shifts between darkness and shadowy light
I struggle with words for fear that they'll hear
But Orpheus sleeps on his back still dead to the world


David Sylvian (*)

Friday, January 31, 2014

Continuo a ser feita de um material que não suporta mais tempestades, por vezes, ainda rasga ao sopro de uma brisa.

xeque

(há dias que parecem existir para nos lembrar que não somos jogadores: que não soubemos apostar ou que desistimos tarde demais.)

Thursday, January 30, 2014

inaptos

"Mais uma vez, agradeço-te pela generosidade."

e o que faço eu com isso? diz-me, de que adianta a gratidão de um morto?