Wednesday, June 18, 2014

Dias tépidos, revolta mansa

A uma escritura de distância de te transformares em nada. É curioso que sejam as formalidades legais a conferir-te uma existência...
Uma das coisas mais tristes que a história nos ensina é que até o passado mente - quanto mais os nossos sentidos, ou o presente ou o futuro...


Rui Zink, A realidade agora a cores
Se eu inventar outra vida, será apenas para não ter que remoer na que tive e não usufrui decentemente.



Rui Zink, A realidade agora a cores

Wednesday, June 11, 2014




The beast
he plays his harp
He does deceive the hearts
False fires in the minds of men


David Eugene Edwards

Monday, June 02, 2014

Sunday, June 01, 2014

"aceitava fosse o que fosse de quem quer que fosse agora, [até os cães, que volta e meia ladravam nas quintas, eu desejava perto, até os moscardos]"


António Lobo Antunes, Não é meia noite quem quer



Há sonhos correndo 
doridos 
fechados


Adolfo Luxúria Canibal

Friday, May 30, 2014

E só com carícias se pode apagar um coração a arder



Adolfo Luxúria Canibal

Sunday, May 18, 2014

da mágoa

Thought I had a dream once
Don't remember what
Your voice cut straight through me
Right down to my bones
Like a winter's wind it
Knocked out my soul

Thought I had some time here
Left my watch at home
Thought I had ideas once
But they were all on loan 
Thought I conquered something
Then it took me down
What I thought I heard clearly
It wasn't sound
Thought I felt your heartbeat
It was just my counting


Angel Olsen [...]
os meus amigos não são aqueles para quem fui tudo até ao momento em que passei a ser nada, não são aqueles que me abandonaram quando deixei de lhes ser útil, os meus amigos não são aqueles com quem partilhei segredos e que, anos mais tarde, quando nos cruzamos por acaso, nem sei se hei-de cumprimentá-los.



José Luís Peixoto, Aquilo que os meus amigos esperam de mim, Visão nº 1103

Saturday, May 17, 2014

[Fazer o quê quando o amor, já morto, se transforma em arritmia e náusea sempre que vejo o fantasma?]

Canícula sem fim

O tempo alonga-se, lento, muito lento numa espera em que parece não ter fim. Imenso, seco, sem o ânimo de uma nuvem o horizonte dissipa-se movediço, sob a inclemência abrasadora do sol, não se vê vivalma. O pó que tenho entranhado nos poros mistura-se com o suor, engelhando-me a pele numa peganhenta camada de sujidade viscosa. Sorvo um pouco de água a tentar mitigar a sede que me corrói, e sinto amansar o ardimento dos lábios gretados pelo calor. Nos rostos duros que me rodeiam, de traços rigídos, e vincados, como se esculpidos em pedra, e dos olhares gélidos que me dirigem, percebo uma tensão crescente, mas ninguém quer dar parte fraca. Todos resistimos à aridez da demora na mais completa quietude, sem distrações, aproveitando as parcas sombras existentes para nos resguardarmos do lume solar. E continuamos a perscrutar permanentemente o horizonte à cata do ínfimo movimento, mas tirando o zumbido das moscas varejeiras, não se passa nada. É o tédio absoluto a cozer-nos em banho-maria, até à morte.



Adolfo Luxúria Canibal, Estilhaços Cinemáticos

Friday, May 16, 2014

Poesia como forma de colocar a afetividade em modo de pensamento e o pensamento em modo de afetividade. Como se sentir pudesse ser mansamente diminuído (ou aumentado) de forma a que não chegue ao grito, mas sim à sensata observação. Sentir para perceber melhor, não para gritar melhor.
Ironia, portanto, como modo de diminuir o disforme que há no grito e na excitação; dor e prazer transformados em verso que, dois metros acima desse solo que dói e tem prazer, diz: ali em baixo dói-me e tenho prazer, porém eu, aqui, enquanto verso, estou dois metros acima (pelo menos). Eis a ironia: o verso está a uma distância segura dessa vida sempre inseguríssima e por vezes parva - outras vezes excelentíssima, mas sempre incontrolável.



Gonçalo M. Tavares, Vasco Graça Moura, poesia, Visão nº 1106

Saturday, May 10, 2014

e, em lugar da ilusão de amor, silhuetas imprecisas, distantes.



António Lobo Antunes, Todos nós temos na vida uma ilusão mais querida, Visão nº 1105

Friday, May 09, 2014

também eu quero tirar de vós o que guardais de mais primitivo, o gesto gratuito e ainda não contaminado. Eu quero escolhas guiadas pela inspiração do desejo, falhas de tino e de provento. Os testículos estão sempre lúcidos. Que o móbil não seja mais que bizarria grotesca, aveludada no pântano das possibilidades. No deitar das sortes reencontro a inocência e a espontaneidade dos jogos de infância, a virgem e o absoluto. 


Adolfo Luxúria Canibal

Wednesday, May 07, 2014

edição

Era tão bom se a pessoa pudesse editar a vida! Dizer assim: esta pessoa tscctsccc [gesto de tesoura], esta viagem tscc tscc. Poder ganhar três anos perdidos, ou os minutos gastos a ler livros que eram uma merda, ou a falar com pessoas que não interessam e que não estão interessadas em nós. Tenho 58 anos, mas, em tempo perdido, devo ter praí uns 25...

Miguel Esteves Cardoso, Visão nº 1104

Friday, April 25, 2014

cair o carmo e a trindade

Durante tanto tempo a ideia de ti não deixava nada de pé. Bastava um vislumbre para que se instalasse o caos. A falta de razões é devastadora.
A multidão ainda não te torna invisível mas hoje não foi mais do que uma oscilação. Estás pequeno, tens a barba desmazelada, perdeste o brilho. 



Monday, April 21, 2014





engraçado... 
estavas à espera que esse bocado de tempo não viesse contigo?
e as más recordações, quem é que as lembra?
quem é que as consome?
já devias saber que a fome não dorme, e... 

Tuesday, April 15, 2014





This is a promise with a catch
Only if you're looking can it find you


Wednesday, March 26, 2014

Save it for someone who cares...


tornámo-nos apenas estranhos com uma hipoteca comum.



Tinhas razão, as recordações não sobrevivem à falta de amor. Só te vejo as fraquezas, as incoerências de carácter: o perfeccionista que se esquece do óbvio; o intelectual incapaz de perceber o sofrimento do outro; o cobarde capaz de sacar das garras de manipulador. E sou eu quem anda de olhos postos no chão.... devíamos ter vergonha! e algum orgulho também.

Tuesday, March 11, 2014

24

nãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevençanãovoudeixarqueaansiedademevença.

Monday, March 10, 2014




The twilight's kneeling
And the chessboard still has two unbalanced pieces

Sunday, March 09, 2014





















[Nada Tenho de Meu - Diário de uma viagem ao Extremo Oriente, de Miguel Gonçalves Mendes, Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca.]



I could not shift the shadow
or form sugar from your halos
(...)
So open up your mouth
and in your invisible church
under sun while cats purr
gorgeous dreams under dark nights
and tender rhymes under swallow flight
and lovely bird song sings


David Tibet 

Wednesday, March 05, 2014

stripped




Will you miss me when I burn
And will you eye me with a longing?
It is longing that I feel
To be missed for, to be real


Bonnie 'Prince' Billy

Friday, February 28, 2014

"the carnival drums all mad in the air"




Across clinical benches with nothing to talk
Breathing tea and biscuits and the Serenity Prayer
While the bones of our child crumble like chalk
O where do we go now but nowhere


Nick Cave

Sunday, February 23, 2014

if it's not asking too much...

Heaven please send to all mankind,
Understanding and peace of mind.
And if it's not asking too much
Please send me someone to love.


Percy Mayfield
[versão de Bill Callahan]

Friday, February 21, 2014

Limited capacity




I painted myself into a corner again
Because I didn't like the colour of my floors
After you walked all over them
You're full of white lies
Oh, you're full of white lies
But I've got a limited capacity
Yeah I've got a limited capacity
And I'll paint my floors again
I'm sure I'll paint my floors again


Bill Callahan