| S. |
Thursday, December 31, 2015
Friday, December 25, 2015
[o tempo de um fósforo]
Um dia serás livro.
Terás uma bela capa dura, macia, cantos arredondados pelo sorriso espontâneo. Talvez sejas de um vermelho escuro de sangue e paixão oxidados pelo tempo. Ou, quem sabe, de um clássico preto, intemporal, memória das noites longas em que me conquistavas o mundo e eu partilhava contigo o sabor a sonho e a maresia de al berto.
Nas tuas folhas encontrarei entranhado o cheiro a tabaco e o aroma adocicado da tua pele que formava uma barreira, sou capaz de jurar, quase invisível junto à minha. O assombroso cheiro dessas noites quentes em que te mantinha acordado para poder gravar as cores dos teus olhos.
Páginas marcadas de frases curtas, dissecadas até ao osso. Algumas nascidas do ácido que nos corrói a esperança e nos doem como as cutículas que arrancamos, lentamente, em jeito de auto-punição. Outras mais doces que surgem das melodias que são também tu. E pelo meio as fotografias dos dias luminosos onde a possibilidade crescia nas pontas dos nossos dedos sem que a travássemos.
Serás um livro de acabamentos irrepreensivelmente perfeitos, no entanto, absolutamente inútil. O futuro não se faz de cadáveres.
S.
Wednesday, December 23, 2015
Friday, December 18, 2015
Wednesday, December 16, 2015
scared of the middle place between light and nowhere
[hope there's someone
who'll set my heart free
nice to hold when I'm tired]
Monday, December 14, 2015
Monday, December 07, 2015
Sunday, December 06, 2015
You can't just go on like that, sitting with melancholy purring on your lap
Just petting the gap between you and yourself
Alex Keiling (*)
Just petting the gap between you and yourself
Alex Keiling (*)
Saturday, December 05, 2015
Tuesday, December 01, 2015
Monday, November 30, 2015
Wednesday, November 25, 2015
Wednesday, November 18, 2015
Saturday, November 14, 2015
Monday, November 09, 2015
Wednesday, November 04, 2015
Monday, October 26, 2015
Tuesday, October 20, 2015
Wednesday, October 07, 2015
Tuesday, October 06, 2015
Wednesday, September 02, 2015
Sunday, August 30, 2015
Sunday, August 23, 2015
Friday, August 21, 2015
Sunday, August 16, 2015
Saturday, August 15, 2015
Friday, August 14, 2015
Saturday, August 01, 2015
Thursday, July 30, 2015
Wednesday, July 29, 2015
Tuesday, July 28, 2015
Monday, July 27, 2015
Pego na lâmina, estudo-lhe o gume. Pouso-a. Afasto-a... estico a mão, volto a tocar-lhe. Sinto-lhe a temperatura. Pondero as consequências do seu uso, afinal, não tenho muito a perder. Pouso-a. Não valerás a cicatriz. Duvido-me. Agarro-a novamente. Atiro-a para longe. Faço por ignorá-la, tento incendiar o silêncio. Repito.
Amanhã, a puta, continuará brilhante, tentadora.
Sunday, July 26, 2015
b.
A violência da tristeza deu lugar à desilusão e ao silêncio. Um mês é nada na guerra civil dos meus dias. Não te consigo fazer o luto. Não te gastei suficientemente para te enterrar já. No entanto, não te sinto as pulsações, a tua respiração é inaudível, o corpo clínico garante-me que a situação é irreversível. Esperei tanto quanto pude por uma recuperação surpreendente mas não há, sequer, uma resposta reflexa aos estímulos.
Ainda assim continuo a vaguear pela enfermaria, ouvindo o barulho ininterrupto das máquinas que teimam em lembrar-me que é hora de serem desligadas. Peço-me só mais um minuto, sempre só mais um minuto... mais um pouco para me despedir. Ambos sabemos que esse ruído será eterno. Está gravado fundo porque incompreensível.
Saturday, July 25, 2015
Mas seria sempre uma imagem, nunca a verdade. E esse foi provavelmente o grande erro: julgar que a verdade é captável de fora, com os olhos só, supor que existe uma verdade apreensível num instante e daí para diante tranquilamente imóvel, como nem uma mesmo a estátua o é, ela que se contrai e dilata à mercê da temperatura, que se corrói com o tempo e que modifica não só o espaço que a envolve como, subtilmente, a composição do chão onde assenta, pelas ínfimas partículas de mármore que vai soltando de si, como nós os cabelos, as aparas de unhas, a saliva e as palavras que dizemos.
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia
Friday, July 24, 2015
porque todas as vidas são secretas, muitas vezes, mesmo para quem as vive.
(...)
Mas é indubitável que a minha memória também se constrói dos outros e com os outros, os outros dão-nos mais existência, dão mais existência ao que nos acontece. O que existe só em nós está quase sempre condenado ao esquecimento. Ou à ilusão.
Dulce Maria Cardoso, Visão nº 1168
Thursday, July 23, 2015
hey you..."go on ahead and take this the wrong way"
do you still leave nothing
but bones in the way?
did you bury the carnival
lions and all
and just who are you this time?
you look rather tired
(who drinks from your shoe)
how do your pistol and your Bible and
your sleeping pills go?
are you still jumping out of windows in expensive clothes?
well I fell in love
with your sailor's mouth and your wounded eyes.
tell me who are you this time?
tell me who are you this time?
Tom Waits
Wednesday, July 22, 2015
Monday, July 20, 2015
And if you think I am ruined
I'm not ruined, I am whole
I am fine, not even broken
Maybe soft spoken, maybe so
Although my bones, you may have shattered
It's only matter
It's not my soul
(...)
It doesn't matter, because I am whole
Bianca Casady [*]
I'm not ruined, I am whole
I am fine, not even broken
Maybe soft spoken, maybe so
Although my bones, you may have shattered
It's only matter
It's not my soul
(...)
It doesn't matter, because I am whole
Bianca Casady [*]
Tuesday, July 14, 2015
Friday, July 10, 2015
05:38
O cansaço faz-me crer que a única alternativa é arrancar o pano verde, jogar fora as cartas e dedicar-me a um qualquer jogo de tabuleiro. O teu bluff já me custou demasiado. A cada partida a pele ganha novas cicatrizes e, francamente, vai perdendo a beleza.
Thursday, July 09, 2015
And your words chased round and round in my head
Last night
They chased their own tales
And your words jigged round my mind all night
To look at me now, I’m quiet as sound
And the tide shrinks back into its womb
And I hope the empty shells and bones of your stories
Will litter and clutter the shores
And I hope that when I find them
I’ll remember how they danced
And the racket they made
When they were alive
King Creosote [*]
Last night
They chased their own tales
And your words jigged round my mind all night
To look at me now, I’m quiet as sound
And the tide shrinks back into its womb
And I hope the empty shells and bones of your stories
Will litter and clutter the shores
And I hope that when I find them
I’ll remember how they danced
And the racket they made
When they were alive
King Creosote [*]
Sunday, July 05, 2015
Thursday, July 02, 2015
Monday, June 29, 2015
undone
o sacana que me bate no peito parece só ter uma missão:
deixar-me de rastos a apanhar estilhaços, a remendar tudo de novo. até deixar de ser músculo capaz de suportar os batimentos.
[*]
(ao sacana devia arrancá-lo, lentamente, deixá-lo-ia a apodrecer. na melhor das hipóteses oferecê-lo para ser despedaçado pelas presas de um lobo... já chega de filha da putice.)
deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos, palavra de honra, não se compreende o motivo, mas pesa, sente-se dentro o
(ia escrever o incómodo e não incómodo conforme não tristeza, não dor, como traduzir isto, não sei)
Deviam chover lágrimas quando o coração pesa muito e há momentos palavra de honra que pesa
(para já fica assim)…
António Lobo Antunes
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