Friday, January 08, 2016



[Well, take a breath, my heart, and hold your tongue 
It's just a cog in the year of all my love 
All my love]

manifesto

ignorar os enigmáticos; os poetas; os que sentem a música sem sentir o outro; os que olham sem ver; os egocêntricos.

Thursday, January 07, 2016

- Acabou a sua conferência com uma ideia muito perturbadora: a de que "tudo terminará numa única partícula, a solidão extrema".

- É mau, não é, a morte por solidão?


Gerry Gilmore, Visão nº 1192

Wednesday, January 06, 2016

[mais um dia de espera nesta existência pastosa de antecipação. 
foges como um louco e sou eu quem tem as mãos a arder.]


Tuesday, January 05, 2016

Não me encontra o que é fresco. Não me chega o ódio e a raiva animal. Perturba-me apenas o que morre na garganta, incendiando o resto do corpo.


O sono que não chega. Ou então vem carregado de ti. Tu disfarçado de outros, manténs apenas o sorriso impassível que te denuncia. Tu que já não existes e ainda ocupas espaço.


[19/09/14]

an imaginary girl, a fiction




Swing pretty girl
Swing
It ain't real anyway
Fields so blue
All drenched in red
Clouds up in the sun
I feel so dead

David Lynch

Sunday, January 03, 2016

relatório clínico

Não é mais que um músculo frouxo, desgastado pelo uso inconsequente. Disforme.
Foi passando de mão em mão na promessa de que o seu uso seria honesto, digno de um sonhador que aproveita cada momento. Correu ultramaratonas enredado em silêncios e equívocos. Quase sempre campeão da invisibilidade.
Anos de abuso fazem com que conheça bem os cuidados intensivos. A cada novo internamento a promessa de uma técnica inovadora. Sugerem-se novos ensaios clínicos... os níveis de toxicidade altíssimos em troca do alívio temporário.
Começa agora a fase do delírio. Pouco restará em breve.

Saturday, January 02, 2016

e porque vou escurecendo tanta noite cá dentro


António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?


Friday, January 01, 2016

note to self

Merteuil - Não voltareis a inflamar o meu coração. Nem mais uma vez. Nunca mais.


Heiner Müller


Friday, December 25, 2015

[o tempo de um fósforo]

Um dia serás livro. 
Terás uma bela capa dura, macia, cantos arredondados pelo sorriso espontâneo. Talvez sejas de um vermelho escuro de sangue e paixão oxidados pelo tempo. Ou, quem sabe, de um clássico preto, intemporal, memória das noites longas em que me conquistavas o mundo e eu partilhava contigo o sabor a sonho e a maresia de al berto. 
Nas tuas folhas encontrarei entranhado o cheiro a tabaco e o aroma adocicado da tua pele que formava uma barreira, sou capaz de jurar, quase invisível junto à minha. O assombroso cheiro dessas noites quentes em que te mantinha acordado para poder gravar as cores dos teus olhos. 
Páginas marcadas de frases curtas, dissecadas até ao osso. Algumas nascidas do ácido que nos corrói a esperança e nos doem como as cutículas que arrancamos, lentamente, em jeito de auto-punição. Outras mais doces que surgem das melodias que são também tu. E pelo meio as fotografias dos dias luminosos onde a possibilidade crescia nas pontas dos nossos dedos sem que a travássemos. 
Serás um livro de acabamentos irrepreensivelmente perfeitos, no entanto, absolutamente inútil. O futuro não se faz de cadáveres.

S.

Wednesday, December 23, 2015

dado que o coração pingos, não batimentos, gotinhas


António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Monday, December 14, 2015




maybe if I send back the blues her broken heart
she will send back mine
a little at a time


Jason Molina

Sunday, December 06, 2015

You can't just go on like that, sitting with melancholy purring on your lap 
Just petting the gap between you and yourself 


Alex Keiling (*)


Tuesday, December 01, 2015

[Podia jurar que o grito contido se está a disseminar por todas as células deste corpo. A náusea, o frio constante. Tratei-o sempre tão mal e continuo a repetir o processo nessa vã inocência de acreditar. Alguém o devia proteger de mim. Pôr termo a este ciclo.]

Monday, November 30, 2015

vou ressuscitar-te, assim poderás contar-me em sussurro o que fomos.
eu poderei contar-te o que esqueci. esta canção quase perdida na casa do nosso passado.


Al Berto, Luminoso Afogado

note to self




Tuesday, October 06, 2015

da madrugada


No teu abraço suspende-se o mundo enquanto a insanidade avança para me engolir.

Thursday, July 30, 2015

He went soft. I stayed hard. That was that.


Eleanor Rigby, The Disappearance of Eleanor Rigby: Them

All I want is a chance to just talk it out. After that you can disappear to wherever it is you disappear to. 


Conor Ludlow, The Disappearance of Eleanor Rigby: Them

Monday, July 27, 2015

Pego na lâmina, estudo-lhe o gume. Pouso-a. Afasto-a... estico a mão, volto a tocar-lhe. Sinto-lhe a temperatura. Pondero as consequências do seu uso, afinal, não tenho muito a perder. Pouso-a. Não valerás a cicatriz. Duvido-me. Agarro-a novamente. Atiro-a para longe. Faço por ignorá-la, tento incendiar o silêncio. Repito. 
Amanhã, a puta, continuará brilhante, tentadora.

Sunday, July 26, 2015

b.

A violência da tristeza deu lugar à desilusão e ao silêncio. Um mês é nada na guerra civil dos meus dias. Não te consigo fazer o luto. Não te gastei suficientemente para te enterrar . No entanto, não te sinto as pulsações, a tua respiração é inaudível, o corpo clínico garante-me que a situação é irreversível. Esperei tanto quanto pude por uma recuperação surpreendente mas não há, sequer, uma resposta reflexa aos estímulos.
Ainda assim continuo a vaguear pela enfermaria, ouvindo o barulho ininterrupto das máquinas que teimam em lembrar-me que é hora de serem desligadas. Peço-me só mais um minuto, sempre só mais um minuto... mais um pouco para me despedir. Ambos sabemos que esse ruído será eterno. Está gravado fundo porque incompreensível.

Saturday, July 25, 2015

Mas seria sempre uma imagem, nunca a verdade. E esse foi provavelmente o grande erro: julgar que a verdade é captável de fora, com os olhos só, supor que existe uma verdade apreensível num instante e daí para diante tranquilamente imóvel, como nem uma mesmo a estátua o é, ela que se contrai e dilata à mercê da temperatura, que se corrói com o tempo e que modifica não só o espaço que a envolve como, subtilmente, a composição do chão onde assenta, pelas ínfimas partículas de mármore que vai soltando de si, como nós os cabelos, as aparas de unhas, a saliva e as palavras que dizemos.


José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia