Colei folhetos pelo bairro, julgam tê-la visto com outras pessoas, em jantaradas, na noite, mas a verdade é que não voltou a casa, não recebi telefonemas a dizer que a encontraram.
Tenho adiado o funeral mas é talvez hora dos preparativos. Uma coisa simples, discreta. Afinal a ausência é tanta, o silêncio, já ninguém ficará surpreendido com o cadáver. Nem valerá a pena o epitáfio. Foi um nada, foi tão pouco memorável, parece ridículo gravar em granito "eterna saudade do que não chegou sequer a ser" ou "aqui jaz a credulidade de uma amizade". E de qualquer forma seria hipócrita dizer o quê sobre algo que "precisa de pretextos" para acontecer.
Talvez pudéssemos publicar o obituário para os mais distraídos nestes meses. Não mais que uma linha, uma mera formalidade: "comunicamos a extinção do que unia X a Y após ausência prolongada de interesse.". Pode ser publicada sem destaque, como sem destaque foi sempre. Sem cerimónias, como em vida.