Sunday, July 24, 2016




(And in the midst of all the awkwardness, all my growing pains, somehow the wonder of life always remains)

O Júlio Pomar disse-me sempre em alturas difíceis da minha vida
- Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer.
E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
- Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente?
(...)
- Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender-me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo-me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios.


António Lobo Antunes, Visão nº 1220

Hey you bastards I'm still here

Wednesday, July 20, 2016



remendos de pele a conter o oceano,
                             apenas remendos de pele para conter o oceano.


Wednesday, July 06, 2016

Thursday, June 30, 2016

if only there would be enough doubt all forces would be suspendend, but there's never enough doubt.


Blixa Bargeld [*]
Hope should be a controlled substance, hope should be a controlled substance, hope should be a controlled substance.


Blixa Bargeld [*]

Saturday, June 25, 2016

366, para que s volte a ser de stranger

Chegaste atrasado, tiraste a roupa, falavas sobre os planos, os imprevistos, o que esperavam de ti. À medida que a noite ganhava corpo, a sombra abraçou-te, sedutora. Deixaste que a rotina do passado se instalasse confortavelmente aos comandos do frágil planador e nos despenhasse contra o solo. 
Durante a vertigem chamaste novamente por ela. Irritaste-te contigo por isso mesmo. Em segundos agarraste-te à versão pouco plausível de que "S" era também de "Stranger". Quando "S" é de fantasma. Numa noite mais quente que a de hoje incendiaste o pouco que construímos. E o fogo, purificador, não deixou nada.

Wednesday, June 22, 2016

lonely lonely




(Distance makes the heart grow weak
So that the mouth can barely speak)

Monday, June 20, 2016




and sometimes when the night is slow,
the wretched and the meek,
we gather up our hearts and go,
a thousand kisses deep

the ponies run, the girls are young,
the odds are there to beat . . .


Leonard Cohen




Habitam a noite. São criaturas pacientes, persistentes, insidiosas até. Profundamente desestabilizadoras obrigando à insónia, à agonia.



Friday, June 17, 2016

there are wolves here abound*


[O teu velório tem sido público mas eu posso jurar que tu ainda não te sabes cadáver. Estou certa que vagueias pela noite à procura de outra imagem de ti, confuso por chegar sempre ao ponto de partida, vazio do constante rodopio. 
O corpo, imóvel, não espera nada, observa apenas a natureza imutável do teu medo de ser, de sentir. Sinto o movimento a nascer, o ombro num gesto imperceptível, contrário aos pés. A luz muda, o frio do rio lembra que é hora de voltar a casa e eu dou-me mais uns minutos, três, cinco, não mais que isso. Concedo, talvez um pouco mais, até que a humidade se cole na pele, até que mesmo de casaco vestido comece a tremer. 
Como posso não olhar? não tarda chegarão impecavelmente vestidos para juntar as flores, baixar a tampa, e tu deixarás de ser real. Quando me cruzar contigo sentirei o arrepio mas já não pertencerás a este mundo. Ficarás reduzido a essa sensação gelada de vazio. Não é triste que se tenha tornado tão previsível? Não é triste que se morra a cada tentativa? Já sinto os salpicos, estou quase a ir...]


*

Wednesday, June 15, 2016

6!











youme knows what meyou wants, 
meyou knows what youme wants, 
and it's granted
they defend each other against the past
if the future isn't bright at least it's colourful
so burn the ship come spring 






Tuesday, June 14, 2016

to all the men whom I have loved

How to walk and where to run 
How to walk and where to run 
I see you kissing in other peoples arms 
See you kissing in cheap bars 
How to walk and where to run 
How to walk and where to run 
I see you kissing oblivious 
Loving only your pain 
I'm walking in oblivion 
Walking in oblivion 
I walk with a childs face 
Remembering our days 
Walking in oblivion 
Walking in oblivion 
It's gotta give, it's gotta change 
Today is the day 

To all the men who I've loved 
To all the men who I've loved 
Something to free your angry hearts 
I'm opening up my arms 
To all the men whom I have loved 
To all the men whom I have loved 
Speak of the fear inside 
It's time to change, there still is time 
Do you remember walking? 
Do you remember watching? 
Our faces in the falling hearts of children 
To all the men whom I have loved 
To all the men whom I have loved 
I dedicate my song saying 
Today is the day 
Today is the day 

So we fall 
And we fall again 
And I have come 
To tell you today 
That I loved you 
There's still time to say 
We're falling hearts of our children 

Through hating and loving 
Through lucking and nothing 
Through all manner of sorrows 
That I have spoken 
I open up my tender heart 
I open up my tender heart 
To all the men whom I have loved 
All of those who I adored 
But I remember something 
I remember walking 
When my heart was frozen 
With that feeling 
It's gotta give, it's gotta change 
It's gotta give, it's gotta change 
Turning round and round saying 
Today is the day 
Today is the day 

So we fall 
And we fall again 
And I have come 
To tell you today 
That I loved you 
There's still time to say 
We're falling hearts of our children 

Falling 
Falling 
Falling 
Falling 
Falling


Polly Jean Harvey [aqui]

"got these sparrows in my fist"*






*Jim Yamouridis

Monday, June 13, 2016

"se nisto, pumba, vos perdesse?"

Que ideia mais parva termos crescido. Aprender a andar de bicicleta, aprender a jogar ténis, perseguir lagartixas no muro e como tudo isto gela em nós um bloco de saudade. 

(...)

E acho que pela primeira vez na vida senti um cheiro a enxofre enquanto me apercebi confusamente que o mundo estava repleto de mistérios estranhos, ele que até então parecia tão simples, tão claro. 

(...)

Porque perdi tudo isto? Porque deixei que tudo isto se perdesse? Era tão rico nesse tempo, tão cheio de minhocas e de nuvens.

(...)

Ternuras da memória por favor não me abandonem: o que seria de mim se nisto, pumba, vos perdesse?



António Lobo Antunes, Visão nº 1214

Saturday, May 21, 2016

Deste conta que morreu?


Colei folhetos pelo bairro, julgam tê-la visto com outras pessoas, em jantaradas, na noite, mas a verdade é que não voltou a casa, não recebi telefonemas a dizer que a encontraram. 
Tenho adiado o funeral mas é talvez hora dos preparativos. Uma coisa simples, discreta. Afinal a ausência é tanta, o silêncio, já ninguém ficará surpreendido com o cadáver. Nem valerá a pena o epitáfio. Foi um nada, foi tão pouco memorável, parece ridículo gravar em granito "eterna saudade do que não chegou sequer a ser" ou "aqui jaz a credulidade de uma amizade". E de qualquer forma seria hipócrita dizer o quê sobre algo que "precisa de pretextos" para acontecer.
Talvez pudéssemos publicar o obituário para os mais distraídos nestes meses. Não mais que uma linha, uma mera formalidade: "comunicamos a extinção do que unia X a Y após ausência prolongada de interesse.". Pode ser publicada sem destaque, como sem destaque foi sempre. Sem cerimónias, como em vida.

Tuesday, May 17, 2016

And the tenderness I feel
Will send the dark underneath
Will I follow?


Beth Gibbons [*]

Sunday, May 15, 2016

(des)ilusões


(tivesse eu sabido e não me teria entregue a uma pessoa assim. muito menos na intimidade onde se despedaçam corações.)


Friday, May 13, 2016

das noites insones


[escrever-te por engano e dizer que pequenas hemorragias alimentam uma anedótica anemia de mim.
podia terminar assim esta noite. ou continuar o plúmbeo silêncio.]


S.

Tuesday, May 10, 2016

Well, they just always hold up something more than they're prepared to give.


Janis, Little Girl Blue

Monday, May 09, 2016





(Sit there, hmm, count your fingers.
What else, what else is there to do?)

Sunday, May 08, 2016

(no wonder why I feel so blue)

(e ele poisava a mão no ombro a desfazer-me os os ossos
- Meu cabrão, meu cabrão
eu, para ele
- Começo a ficar farto das tuas declarações de amor 
a desfazer-lhe os ossos também porque não gosto de ficar aleijado sozinho)



António Lobo Antunes, Visão nº 1209

Saturday, May 07, 2016

o pudor de estar ao lado do sofrimento, tocando-lhe sem lhe tocar, porque não é preciso mexer nas pessoas para gostar delas, nem mudar-lhes os traços e os gestos para as amarmos.



António Lobo Antunes, Visão nº 1209

Tuesday, May 03, 2016

Mas é um destroço, Farida. Aqui só há outroras, isto é água riscando fósforos.


Mia Couto

Thursday, April 21, 2016

No wonder why you've been buggering me
Cause this walk it's a previous journey
And no wonder why the road seem so long
Cause I have done it all before
And I won

I'm sending my condolence
I'm sending my condolence to fear
I'm sending my condolence
I'm sending my condolence to insecurities


Benjamin Clementine [*]

Friday, March 18, 2016


dias prenhes de inferno. o corpo em chamas. a passo lento perdemos tempo que não recuperaremos. perdemos também o orgulho, a energia. tornámo-nos apenas animais.


Tuesday, March 08, 2016


You changed, the world absorbed you... more and more. (...) I think you were afraid of going astray, I couldn't help you stay on the right path, your head was turned in the wrong direction. (...) You were sincere with the promisses you made. Still, they didn't come from your heart.


Nancy, Knight of Cups