Wednesday, October 05, 2016

shhhh...


[o cansaço da espera, do relatório detalhado, o cansaço da noite, do silêncio. da ausência de uma mão no ombro que o envolva num abraço, da solidão, da invisibilidade. cansaço da repetição, da tentativa, da ingenuidade para não enlouquecer. o cansaço de nunca descolar dos aeroportos. o cansaço do ontem, do hoje, sem nada que faça prever que o amanhã seja diferente.]

Sunday, October 02, 2016

Saturday, October 01, 2016

slow dance in her dreams

o silêncio alojado no espaço de um palmo que vai do externo à traqueia, é denso o filho da puta. escuro. engorda sugando a banalidade dos dias. a respiração superficial ajuda a lembrar como cresceu, o cabrão. a árvore frondosa do alheamento cresce rapidamente no substrato infértil de mim. 


Tuesday, September 27, 2016


[o corpo lateja, dos pulsos aos dedos, e destes às vértebras.]


Monday, September 26, 2016

"perhaps my brains are old and scrambled"


I can't see the lines
I used to think I could read between
Perhaps my brains have turned to sand


Brian Eno [*]

Thursday, September 22, 2016

mostly I never knew which way was out
once it was on, it was on and that was that


Nick Cave

Sunday, September 18, 2016


em mim nada secou 
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples 
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar... e no coração persistente das plantas


Al Berto, O Medo, pág. 159

Saturday, September 17, 2016


e as aves? frágeis quando aperta a tempestade... migraram como eu? 
(...) 
estremecem-me nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva


Al Berto, O Medo, pág. 155

Friday, September 16, 2016

as mãos, os pés calçados de lua, olhos inchados 
ele caminha 
vinho, bebe vinho como os deuses 
esquece os corpos que o povoam, ouve vozes 
pressentem-se vozes 
a cidade existe em ti, mas ele tocou outros frios 
outros marulhares, o vento cortante doutras ruas 
um insecto luminoso, um eco 
folha de árvore arrastando-se na lama, cigarro que se extingue na humidade da memória doutros dias 
caminha, resta-lhe perder a memória  
esvaziar-se



Al Berto, O Medo, págs 117-118

Thursday, September 15, 2016

so faraway and yet so close


s.

Kiss so softly the mouths of the ones you love, 
beneath the September moon and the heavens above. 
And the world will turn without you, 
and history will soon forget about you


Nick Cave

Friday, September 09, 2016





I saw you standing there in the supermarket
with your red dress falling, your eyes are to the ground
nothing really matters 

Tuesday, August 23, 2016


Não me posso impedir de acreditar mesmo quando o olhar vai ficando vazio e a cabeça leve. O corpo frágil é nada quando sentimos o tanto que é.

Monday, August 15, 2016

chega-me, bem nutrido, um vazio vindo de longe. banalidades como jóias, tomadas por diálogo. repetição como exercício de normalidade.


Friday, August 12, 2016

à noite, no verão, de luz apagada, ouvia o mar na cama: a mesma onda sempre, ainda hoje a mesma onda a trazer a praia e a levar a praia e, ao levar a praia, eu suspenso do nada sem tocar nos lençóis.



António Lobo Antunes, Visão nº 1223

Wednesday, August 03, 2016




(...)

what the horizon only tells to us ghost
is that when its quiet in our heart
we become the diesel

we become the smoke
we become the prarie
we become spark
and the only song coming in on the radio
the only song coming in on the radio

well you take that map of the falling sky
and you lay it across your heart
and the lonliness between us is right where you are
and the lonliness between us is right where you are


Jason Molina

Tuesday, August 02, 2016

e o piano do coração aos trambolhões na escada rasgando cordas de veias (...) nunca vi uma pessoa ocupar tão pouco espaço como ele nessa tarde à medida que fragmentos indecisos principiavam a unir-se em mim, membranas transparentes e essa espécie de lágrimas que nos acompanham toda a vida, algumas vezes nas pálpebras mas a maior parte do tempo ocultas de nós, numa das pregas de desconsolo de que somos feitos, se conseguisse contar-vos, e não consigo, o que nos rói sem sabermos, o que custa sem darmos fé omitindo os segredos estrangulados e as misérias conscientes, tanta boneca falecida, tantos olhos só nossos que nos censuram 



António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

aqui há também uma coisa muito parecida com um idiota, que é um homem bom.


Pedro Mexia sobre o filme Um Homem Sério (Nov. 2015)

the fact that he sings so much about the heart, and about being filled with stuff, you know... sometimes dead stuff (...) his heart was open, always, and that sometime served him, and sometimes it meant that he felt everything.



[The Sad & Beautiful World of Sparklehorse - Bobby Dass, Alex Crowton]

Monday, August 01, 2016

das ausências


repetiste tantas vezes que nos íamos magoar mas não foste capaz de o assumir enquanto preparavas esta fuga. faltou-te a coragem para dizer não quero estar contigo ou desculpa, não consigo. não sei como olhar para a caricatura em que te transformaste, a naturalidade com que vestes o papel não me deixa continuar a olhar-te nos olhos.
só porque tenho muito amor para dar isso não te dá o direito de tirar quando precisas e alimentares a ilusão de que te preocupas. terás tu consciência do que tem doído arrancar-te assim dos dias?

Sunday, July 31, 2016

a janela em cima a iluminar um gato que nos ilumina a nós com as lamparinas dos olhos, há alturas no escuro em que só os gatos se acendem, que fazem eles no livro, de que região da infância veio este encher a página de sumaúma e silêncio



António Lobo Antunes, Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?

Sunday, July 24, 2016




(And in the midst of all the awkwardness, all my growing pains, somehow the wonder of life always remains)

O Júlio Pomar disse-me sempre em alturas difíceis da minha vida
- Aguenta-te
que de facto é a única coisa que se pode dizer.
E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede, que resiste e encosto-me a ela pensando
- Quando é que irá cair, quando é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se não cai, conseguiremos levantar tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma ruína igualmente?
(...)
- Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me, juntar-me todo, defender-me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim e não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado, do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo-me que grita apenas porque os meus ossos vibram, reduzidos a fios.


António Lobo Antunes, Visão nº 1220

Hey you bastards I'm still here

Wednesday, July 20, 2016



remendos de pele a conter o oceano,
                             apenas remendos de pele para conter o oceano.


Wednesday, July 06, 2016

Thursday, June 30, 2016

if only there would be enough doubt all forces would be suspendend, but there's never enough doubt.


Blixa Bargeld [*]
Hope should be a controlled substance, hope should be a controlled substance, hope should be a controlled substance.


Blixa Bargeld [*]

Saturday, June 25, 2016

366, para que s volte a ser de stranger

Chegaste atrasado, tiraste a roupa, falavas sobre os planos, os imprevistos, o que esperavam de ti. À medida que a noite ganhava corpo, a sombra abraçou-te, sedutora. Deixaste que a rotina do passado se instalasse confortavelmente aos comandos do frágil planador e nos despenhasse contra o solo. 
Durante a vertigem chamaste novamente por ela. Irritaste-te contigo por isso mesmo. Em segundos agarraste-te à versão pouco plausível de que "S" era também de "Stranger". Quando "S" é de fantasma. Numa noite mais quente que a de hoje incendiaste o pouco que construímos. E o fogo, purificador, não deixou nada.

Wednesday, June 22, 2016

lonely lonely




(Distance makes the heart grow weak
So that the mouth can barely speak)

Monday, June 20, 2016




and sometimes when the night is slow,
the wretched and the meek,
we gather up our hearts and go,
a thousand kisses deep

the ponies run, the girls are young,
the odds are there to beat . . .


Leonard Cohen




Habitam a noite. São criaturas pacientes, persistentes, insidiosas até. Profundamente desestabilizadoras obrigando à insónia, à agonia.



Friday, June 17, 2016

there are wolves here abound*


[O teu velório tem sido público mas eu posso jurar que tu ainda não te sabes cadáver. Estou certa que vagueias pela noite à procura de outra imagem de ti, confuso por chegar sempre ao ponto de partida, vazio do constante rodopio. 
O corpo, imóvel, não espera nada, observa apenas a natureza imutável do teu medo de ser, de sentir. Sinto o movimento a nascer, o ombro num gesto imperceptível, contrário aos pés. A luz muda, o frio do rio lembra que é hora de voltar a casa e eu dou-me mais uns minutos, três, cinco, não mais que isso. Concedo, talvez um pouco mais, até que a humidade se cole na pele, até que mesmo de casaco vestido comece a tremer. 
Como posso não olhar? não tarda chegarão impecavelmente vestidos para juntar as flores, baixar a tampa, e tu deixarás de ser real. Quando me cruzar contigo sentirei o arrepio mas já não pertencerás a este mundo. Ficarás reduzido a essa sensação gelada de vazio. Não é triste que se tenha tornado tão previsível? Não é triste que se morra a cada tentativa? Já sinto os salpicos, estou quase a ir...]


*