Sunday, February 05, 2017



Eu sabia que a inocência é cúmplice do mal; ignorava apenas onde atam ambos o seu nó estrangulador.


Herberto Helder, Os Passos em Volta, pág. 78

Saturday, February 04, 2017

Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior - a memória mortal. Mas como pode a memória ser assim tão esperta e implacável, tão acerba, renovando continuamente o instante completo, o crime completo até dentro, tudo: o impulso nascido da mais obscura intransigência, o gesto que exprime inteiramente a biografia, ou o poder do coração que não deixou escapar uma única parcela da atrocidade e da ciência? E renova também o vertiginoso arrepio do espectáculo: o corpo onde a ferida muito entranhadamente talha a carne em duas.


Herberto Helder, Os Passos em Volta, págs. 79-80.

Tuesday, January 17, 2017

10






















(resta-me apenas a imagem do teu corpo exausto em cima do coração, da tristeza da despedida, da luz débil que se prolongou nesse ano. já não dói.)

Saturday, January 07, 2017

keine Schönheit ohne Gefahr




Once again
at the edge
so close to the edge
ready
from one or the other
side to fall
damned fall
damned fall
don't grab on
listen!
no beauty without danger
without danger
no beauty without danger
without danger
danger
at the edge
damned fall
fall
fallen
fallen without danger
no beauty without danger
no beauty without danger
and no love
also no love
without danger
without danger
without danger

Blixa Bargeld

Saturday, November 19, 2016

"leaving nothing behind"

[Not quite right, not quite fun, not quite interesting, not quite drunk, not quite visible, not quite alive. Moderadamente útil, moderadamente a jeito. 
Fuck you universo! Nada te basta para pagar a estadia.]


Wednesday, November 02, 2016




"há audácias que aparam o teu gesto, as poeiras que levantam as palavras"

Sunday, October 23, 2016


[sangro em frases curtas no silêncio sufocante da distância, da solidão. em tempos os cortes , agora a agonia. não acaba nunca esta luta dentro da pele.]


Thursday, October 20, 2016

num assomo, de olhos postos no sofá e no eléctrico nocturno que decora a parede, percebo, finalmente, ser orfã de pais vivos, ou de colo que nunca chegou a ser. 
maracujá nascido e caído da figueira. a mesma que, ao fundo do quintal, tomba milímetros a cada ano que passa e só lembra o passado.

Saturday, October 15, 2016

Corri bastante mundo e aprendi que todos os sangues são bons e iguais, mas é por isso que a certa altura nos cansamos e procuramos criar raízes, arranjar uma terra, para que o nosso sangue valha e dure algo mais do que uma vulgar mudança de estação.



Cesare Pavese, A Lua e as Fogueiras​

Wednesday, October 05, 2016

shhhh...


[o cansaço da espera, do relatório detalhado, o cansaço da noite, do silêncio. da ausência de uma mão no ombro que o envolva num abraço, da solidão, da invisibilidade. cansaço da repetição, da tentativa, da ingenuidade para não enlouquecer. o cansaço de nunca descolar dos aeroportos. o cansaço do ontem, do hoje, sem nada que faça prever que o amanhã seja diferente.]

Sunday, October 02, 2016

Saturday, October 01, 2016

slow dance in her dreams

o silêncio alojado no espaço de um palmo que vai do externo à traqueia, é denso o filho da puta. escuro. engorda sugando a banalidade dos dias. a respiração superficial ajuda a lembrar como cresceu, o cabrão. a árvore frondosa do alheamento cresce rapidamente no substrato infértil de mim. 


Tuesday, September 27, 2016


[o corpo lateja, dos pulsos aos dedos, e destes às vértebras.]


Monday, September 26, 2016

"perhaps my brains are old and scrambled"


I can't see the lines
I used to think I could read between
Perhaps my brains have turned to sand


Brian Eno [*]

Thursday, September 22, 2016

mostly I never knew which way was out
once it was on, it was on and that was that


Nick Cave

Sunday, September 18, 2016


em mim nada secou 
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples 
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar... e no coração persistente das plantas


Al Berto, O Medo, pág. 159

Saturday, September 17, 2016


e as aves? frágeis quando aperta a tempestade... migraram como eu? 
(...) 
estremecem-me nas mãos os insectos cortantes do medo, em meu peito doído ergue-se esta raiva dos mares-de-leva


Al Berto, O Medo, pág. 155

Friday, September 16, 2016

as mãos, os pés calçados de lua, olhos inchados 
ele caminha 
vinho, bebe vinho como os deuses 
esquece os corpos que o povoam, ouve vozes 
pressentem-se vozes 
a cidade existe em ti, mas ele tocou outros frios 
outros marulhares, o vento cortante doutras ruas 
um insecto luminoso, um eco 
folha de árvore arrastando-se na lama, cigarro que se extingue na humidade da memória doutros dias 
caminha, resta-lhe perder a memória  
esvaziar-se



Al Berto, O Medo, págs 117-118

Thursday, September 15, 2016

so faraway and yet so close


s.

Kiss so softly the mouths of the ones you love, 
beneath the September moon and the heavens above. 
And the world will turn without you, 
and history will soon forget about you


Nick Cave

Friday, September 09, 2016





I saw you standing there in the supermarket
with your red dress falling, your eyes are to the ground
nothing really matters